Dia Mundial da Água: entenda porque precisamos tanto dela

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Hoje (22) é comemorado o Dia Mundial da Água, recurso natural essencial para vida no nosso planeta e um aliado na luta contra o novo coronavírus. A data foi criada em 1992 pela Organização das Nações Unidas (ONU) com objetivo de ampliar o debate sobre a importância da água para a sobrevivência humana, incentivar o consumo consciente e chamar a atenção para os perigos da escassez. Para quem não sabe, a Terra possui cerca de 71% de sua superfície recoberta por água, mas desse total cerca de 97,5% da água é salgada e apenas 2,5% são de água doce, que é a utilizada para consumo humano


Em Salvador, quando falamos em água, é comum pensar em mar e praia, porém uma das maiores riquezas da capital baiana e sua região metropolitana está no seu alto índice pluviométrico.  A incidência das chuvas fez com que Salvador fosse entrecortada por um extenso número de rios, que serviram de atrativo aos colonizadores, mas que, ao longo do tempo, foram degradados pela urbanização não planejada.

Em prol de um futuro com mais autonomia e sustentabilidade em termos de gestão hídrica, a cidade vem traçando estratégias e buscando formas de reverter o quadro de poluição das suas águas, mas os desafios não são poucos e neste Dia Mundial da Água repercutimos como o fracasso nesta missão pode custar muito caro para os soteropolitanos em um futuro bem próximo.

Desordenado – Para entendermos essa relação é preciso voltar pouco mais de 50 anos na história e conhecer o processo de ocupação desordenada da cidade, repleta de rios que pertencem à 12 bacias hidrográficas. A poluição dos córregos começou a se intensificar entre as décadas de 1960 e 1970 com o aumento da população. “É importante ter em mente que a pobreza, aliada à falta de políticas públicas urbanas, acelerou bastante a degradação desses mananciais”, explica o diretor de Recursos Hídricos e Monitoramento Ambiental do Inema, Eduardo Topázio.

A relação entre o crescimento desordenado e a ausência de saneamento que acompanhasse o ritmo acelerado da ocupação urbana fez com que rios que poderiam suprir a demanda regional por água, e mesmo serem utilizados para navegação, se tornassem poluídos. Um exemplo disso, segundo Eduardo, é a Bacia do Rio Camarajipe, que nasce na Boa Vista de São Caetano e desagua no Jardim dos Namorados. “Se trata de um rio extenso que vem de uma parte extremamente adensada da cidade e encontra com o mar. O Programa Bahia Azul, que se propôs a fazer o saneamento ambiental em toda a cidade, conseguiu amenizar o problema, mas ainda hoje está longe de ser solucionado”, aponta.

Esforço contínuo – Atualmente a luta para fiscalizar e coibir os despejos de esgoto nos rios de Salvador é um esforço contínuo. A operação da Embasa na Bacia do Rio dos Seixos, que nasce no Vale do Canela e passa pela Centenário, de onde segue até sua foz ao lado do Morro do Cristo, na Barra acabou com o lançamento clandestino de esgoto no local.

“A fiscalização da rede de esgoto e o monitoramento da qualidade da água do rio são trabalhos que não param, porque a dinâmica da ocupação em torno de sua bacia é constante. Novas construções ou imóveis que passam por ampliações e, muitas vezes, seus responsáveis não ligam corretamente as instalações hidrossanitárias das novas unidades, jogam esgoto no Rio dos Seixos. Essas irregularidades são comunicadas à Prefeitura e ao Inema, órgãos competentes para multar os responsáveis”, explica o superintendente de Esgotamento Sanitário da Embasa, Flávio Lordello.

Para o superintendente apenas retirar os esgotos clandestinos não é suficiente para manter o rio limpo. “A responsabilidade em relação à qualidade deste rio é do poder público municipal, estadual e de todos os habitantes de sua bacia, que devem ter em perspectiva a ligação de seu esgoto na rede certa, a ligação da água de telhados e de drenos de áreas externas na rede de drenagem de chuva e a destinação correta de lixo e entulho”, ressalta.

Futuro – Mesmo com o bem-sucedido o trabalho realizado no Rio dos Seixos, Eduardo acredita que expandir a ação para outros mananciais da cidade pode ser uma missão mais difícil. “Não é impossível, mas também não é fácil. Vemos hoje o caso de metrópoles como Londres, que é bem maior que Salvador, mas que tem obtido sucesso no mapeamento dos seus rios e no tratamento das águas. Pela complexidade da habitação, esse trabalho aqui é mais complicado, mas se feito de maneira contínua, pode sim trazer bons resultados”, afirma.

Para Edison Carlos, presidente do Instituto Trata Brasil, entidade formada por empresas com interesse nos avanços do saneamento básico e na proteção dos recursos hídricos do país, Salvador só tem a ganhar investindo em ações de recuperação dos córregos. “A natureza já não consegue diluir tanta poluição e isso afeta a qualidade de vida, além de prejudicar a economia. O esgoto que vai para os mares atrapalha, por exemplo, o turismo em uma cidade como Salvador, que tem esse setor forte”, destaca.

Além do impacto no turismo, Eduardo Topázio acredita que situação de poluição dos rios pode penalizar os soteropolitanos no futuro, já que a crescente demanda por água deve escassear os recursos. “A maior parte do abastecimento de Salvador vem de barragens que estão fora da cidade. As mudanças climáticas aliadas à pressão populacional sobre a rede de abastecimento podem tornar a água um bem cada vez mais caro”, ressalta. “Se tivéssemos uma boa qualidade nos rios, esse recurso poderia ser destinado ao suprimento das microrregiões do entorno, porém com o nível de poluição que se encontram atualmente, isso seria impossível. Temos que pensar no futuro”, diz.

Sustentabilidade é a palavra de ordem na Indústria
No passado associada à poluição e degradação do meio ambiente, a Indústria – que é responsável pelo consumo de 10% da água captada para uso no Brasil – vem modificando os seus processos ao longo dos anos e mostrando ao mundo que é possível aliar a produção aos conceitos de sustentabilidade e responsabilidade socioambiental. Um dos principais avanços do setor tem sido registrado exatamente no contexto da gestão hídrica, das estratégias de consumo consciente aos modernos sistemas de tratamento de efluentes.

Fabricante de cloro, soda e derivados que são utilizados para tratamento de água e esgoto, a Unipar tem buscado contribuir diretamente para a construção e modernização das redes de fornecimento de água limpa, além de coleta e tratamento de esgoto, previstas nas metas definidas pelo marco do saneamento, aprovado este ano.

De acordo com o diretor de Químicos, Rogerio Costa, o compromisso de levar água com qualidade para a população é um dos pilares da empresa. “Por sermos um dos principais fabricantes de produtos utilizados no tratamento de água, temos uma preocupação muito grande em relação ao objetivo de levar água potável aos 35 milhões de brasileiros que não tem acesso a este recurso”, explica.

“A pandemia veio trazer um olhar diferenciado sobre a importância da desinfecção e o Marco do Saneamento veio para afirmar a necessidade de garantir o direito de acesso à água limpa para todos. Por isso procuramos levar esse compromisso muito além do discurso, desde as doações de produtos às prefeituras, até o empenho no tratamento de efluentes provenientes da nossa produção”, completa. 

Rogerio destaca que as plantas industriais da Unipar contam com um rigoroso processo de tratamento dos efluentes líquidos, através de unidades devidamente projetadas, licenciadas e operadas. Os descartes são monitorados e atendem de maneira sistemática a todos os padrões estipulados na legislação das localidades. Na unidade de Cubatão (SP), os efluentes passam por um aquário de peixes antes de serem descartados para o rio, comprovando a qualidade do tratamento. 

Gestão sustentável – Para o presidente do Instituto Trata Brasil, Édison Carlos, as grandes indústrias foram as primeiras a serem chamadas ao debate da gestão hídrica sustentável e logo perceberam que não é possível ser forte economicamente agredindo o meio ambiente. “Além da fiscalização, que foi intensificada, e das multas mais pesadas, passou a existir o entendimento de descarte como desperdício da produção. Então se investe cada vez mais em tecnologia e treinamento profissional”, afirma.

Um bom exemplo é a fabricante de pigmentos Tronox, com unidade no Polo de Camaçari, que focou em gestão para minimizar o volume hídrico no seu processo produtivo. “Os investimentos se tornaram mais expressivos a partir do final dos anos 90, envolvendo mudança de processo, aquisição de novas tecnologia, parceria com a Universidade, pesquisa de benchmarking. Mas é importante destacar que um dos fatores críticos foi o trabalho de conscientização do público interno. Quanto mais engajada está a equipe interna, melhores são os resultados”, afirma a engenheira Geiza Oliveira, líder de Meio Ambiente da Tronox na Bahia. 

A fábrica conseguiu reduzir em mais de 50% o consumo de água utilizada por tonelada de pigmento produzida, em comparação com 2001. Além disso, em parceria com Faculdade Politécnica da UFBA, desenvolveu um projeto que otimiza o uso da água e minimiza a geração de efluentes líquidos.

Outro marco tecnológico foi o projeto pioneiro de separação do lodo resultante do processo de decantação em sua estação de tratamento de água (ETA) usando bolsões de feitos por um tecido inteligente, o geotêxtil. A água que é drenada pelos poros do tecido possui alto grau de pureza e retorna para o rio.

Consumo consciente da água no Agro
A tecnologia também vem se tornando uma aliada cada vez mais forte do agronegócio quando o assunto é a utilização responsável da água. Um dos maiores seus maiores consumidores no país, o setor agrícola segue o mesmo pensamento da indústria ao relacionar o gasto excessivo do recurso ao prejuízo na produção, por isso os investimentos em gestão hídrica só crescem no campo.

“Partindo do conceito de que a agricultura tem que gerar lucros, os insumos – energia, água e equipamentos eficientes – criam uma sinergia que reflete no custo de produção. É caro colocar água no lugar certo, na hora certa”, explica o vice-presidente da Federação da Agricultura e Pecuária do Estado da Bahia (FAEB), Guilherme Moura.

“O bombeamento da água utiliza razoáveis quantidades de energia refletindo em até 20% do custo de produção. O investimento em equipamentos significa a busca pela eficiência. Os sistemas de irrigação alcançam a eficiência entre 85% a 95%, se bem manejado”, completa o vice presidente da Federação da Agricultura e Pecuária do Estado da Bahia (FAEB), Guilherme Moura.

De acordo com Guilherme, no processo de consumo consciente dos recursos hídricos, o agronegócio tem oferecido uma importante contrapartida à cidade e ao campo, ao se tornar um potencial contribuinte do suprimento de água nessas regiões. “Quando a demanda não é suprida, a permissão para a atividade rural é imediatamente suspensa para que a cidade continue sendo abastecida”, diz.

“Em caso de necessidade em priorizar do uso, o produtor rural é o primeiro a fechar sua “torneira”, sendo, portanto, um contribuinte na manutenção do abastecimento urbano ficando claro que agricultura não retira água das cidades. O produtor faz parte do ciclo da água e está pronto a prover as áreas urbanas de seu abastecimento”, aponta.

Como evitar o desperdício
O consumo humano diário varia muito se considerarmos o local onde se vive, o clima, os hábitos, vazamentos, uso de máquinas que precisam de água, modelo de descargas, a forma como abrimos e fechamos as torneiras em casa. Tudo isso influencia o valor da fatura mensal.  

– No banho, na hora de passar o xampu e o sabonete, desligue o chuveiro.  
– Ao lavar o carro, em vez de usar mangueira, use balde.  
– Faça sua higiene diária, mas não desperdice água. Enquanto estiver escovando os dentes, fazendo a barba ou ensaboando as mãos, deixe a torneira fechada. Reabra apenas para enxaguar.  
– Substitua vasos antigos por novos, que consomem seis litros por fluxo, e utiliza a caixa com descarga acoplada.  
– Instale arejadores de vazão nas torneiras. O arejador é um acessório que tem a função de misturar ar à água, dando uma sensação de maior volume, podendo reduzir o consumo de 50% a 80%. Os modelos mais econômicos funcionam com uma vazão fixa, espalhando a água através de micro jatos.  
– Deixe acumular as roupas e lave de uma vez. Se for lavar na mão, não esqueça de fechar a torneira enquanto ensaboa e esfrega a roupa.  
– Use regador em vez de mangueira. Assim você gasta muito menos.  
– Feche a torneira enquanto ensaboa a louça e não lave hortaliças e legumes em água corrente. Use uma bacia. Atenção! Ao comprar máquina de lavar roupas ou pratos, verifique no manual o consumo de água do produto.  
– Jamais use água para varrer a calçada e o quintal. Use a vassoura. Depois jogue a água depositada em um balde (sobras de águas de lavagem de roupas que já estão com sabão, por exemplo).  

Economia em litros  

Pia do banheiro: ao escovar os dentes com a torneira aberta, em cinco minutos gasta-se em média 25 litros de água. Com a torneira fechada, o consumo reduz para 1 litro.  

Chuveiro: em 15 minutos, um banho com o registro aberto é responsável pelo consumo de 138 litros de água, em média. Em cinco minutos, gasta-se 46 litros

Vaso sanitário: uma descarga com válvula desregulada ou bacia antiga consome até 30 litros de água. Com a válvula regulada ou bacia acoplada, o consumo é de 10 litros.  

Pia da cozinha: lavando louça com a torneira aberta, em 15 minutos gasta-se em média 75 litros de água. Fechando a torneira, o consumo cai para 46 litros.  

Mangueira: regar o jardim com a mangueira comum aberta durante 10 minutos corresponde a um consumo de 186 litros de água. Com a mangueira esguicho tipo revólver, o consumo cai para 90 litros, em média.  

Declaração Universal dos Direitos da Água

  1. Proclamada com o objetivo de atingir todos os indivíduos, todos os povos e todas as nações do planeta, a Declaração Universal dos Direitos da Água foi feita para que todos os homens, tendo-a sempre presente no espírito, se esforcem, através da educação e do ensino, para respeitar os direitos e obrigações anunciados. E assumam, com medidas progressivas de ordem nacional e internacional, seu reconhecimento e aplicação efetiva.
  2. A água faz parte do patrimônio do planeta. Cada continente, cada povo, cada nação, cada região, cada cidade e cada cidadão é plenamente responsável pela água nossa de cada dia.
  3. A água é a seiva do nosso planeta. Ela é a condição essencial da vida em todo ser vegetal, animal ou humano. Sem água não poderíamos conceber como são a atmosfera, o clima, a vegetação, a cultura ou a agricultura. O direito à água é um dos direitos fundamentais do ser humano – o direito à vida, tal qual é estipulado no Artigo 30 da Declaração Universal dos Direitos do Homem.
  4. Os recursos naturais de transformação da água em água potável são lentos, frágeis e muito limitados. Assim sendo, a água deve ser manipulada com racionalidade, precaução e parcimônia.
  5. O equilíbrio e o futuro de nosso planeta dependem da preservação da água e dos seus ciclos. Estes devem permanecer intactos e funcionando normalmente, para garantir a continuidade da vida sobre a Terra. Este equilíbrio depende, em particular, da preservação dos mares e oceanos, por onde os ciclos começam.
  6. A água não é somente uma herança dos nossos predecessores; ela é sobretudo um empréstimo aos nossos sucessores. Sua proteção constitui uma necessidade vital, assim como uma obrigação moral do homem para com as gerações presentes e futuras.
  7. A água não é uma doação gratuita da natureza; ela tem um valor econômico: é preciso saber que ela é, algumas vezes, rara e dispendiosa e que pode muito bem escassear em qualquer região do mundo.
  8. A água não deve ser desperdiçada, nem poluída, nem envenenada. De maneira geral, sua utilização deve ser feita com consciência e discernimento, para que não se chegue a uma situação de esgotamento ou de deterioração da qualidade das reservas atualmente disponíveis.
  9. A utilização da água implica o respeito à lei. Sua proteção constitui uma obrigação jurídica para todo o homem ou grupo social que a utiliza. Esta questão não deve ser ignorada nem pelo homem nem pelo Estado.
  10. A gestão da água impõe um equilíbrio entre os imperativos de sua proteção e as necessidades de ordem econômica, sanitária e social.
  11. O planejamento da gestão da água deve levar em conta a solidariedade e o consenso em razão de sua distribuição desigual sobre a Terra.
    Fonte: ONU (Organização das Nações Unidas)

Linha do tempo
Desde 1994, a ONU define um tema para o Dia Mundial da Água com o objetivo de promover um debate do qual participam governos, agências internacionais, organizações não governamentais e setor privado.

2020: Água e mudanças climáticas
2019: Não deixe ninguém para trás
2018: Soluções naturais para a água
2016: Água e empregos: investir em água é investir em empregos
2015: Água e desenvolvimento sustentável
2014: Água e energia2013: Cooperação pela água
2012: Água e segurança alimentar
2011: Água para cidades: respondendo ao desafio urbano
2010: Água limpa para um mundo saudável
2009: Águas transfronteiriças: a água da partilha, partilha de oportunidades.
2008: Saneamento
2007: Lidando com a escassez de água
2006: Água e cultura
2005: Água para a vida
2004: Água e desastres
2003: Água para o futuro
2002: Água para o desenvolvimento
2001: Água e saúde
2000: Água para o século XXI
1999: Todos vivem rio abaixo
1998: Água subterrânea: o recurso invisível
1997: Águas do mundo: há suficiente?
1996: Água para cidades sedentas
1995: Mulheres e água
1994: Cuidar de nossos recursos hídricos é função de cada um

(*) Correio 24 horas

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